Blog
Por que os Gatos 'Amassam Pãozinho'? A Ciência por trás do Comportamento
Se você já se acomodou no sofá com um cobertor macio, apenas para o seu gato marchar até você, ronronar alto e começar a empurrar ritmicamente as patas dianteiras para dentro e para fora do tecido, você testemunhou um dos comportamentos felinos mais cativantes — e intrigantes.
Coloquialmente conhecido no Brasil como “amassar pãozinho”, “afofar” ou “marchar”, essa ação rítmica e alternada das patas é universalmente reconhecida pelos donos de gatos. Alguns gatos fazem isso com as garras completamente retraídas, resultando em uma massagem suave. Outros estendem totalmente as garras a cada empurrão, transformando a “massagem” em uma sessão dolorosa de acupuntura para qualquer um que esteja preso debaixo deles. Alguns gatos até sugam o cobertor enquanto amassam, com os olhos vidrados em completo êxtase.
Mas por que eles fazem isso? Como acontece com quase todos os comportamentos felinos peculiares, a resposta reside em uma mistura fascinante de biologia evolutiva, instintos neonatais arraigados e comunicação olfativa.
Aqui está a explicação científica e comportamental de por que os gatos amassam pãozinho.
1. O Instinto Neonatal (A Memória de Filhote)
Para entender o ato de amassar, temos que olhar para o início da vida de um gato. O comportamento é instintivo e está integrado na neurologia felina desde o momento em que nascem.
Quando uma ninhada de gatinhos está mamando, eles instintivamente empurram suas minúsculas patas dianteiras ritmicamente contra o abdômen de sua mãe, ao redor de suas tetas. Essa ação de pressão estimula as glândulas mamárias da mãe, desencadeando a liberação de ocitocina e estimulando o fluxo de leite. Sem essa ação de amassar, os gatinhos simplesmente não conseguiriam leite suficiente para sobreviver.
Durante esse processo de amamentação, o gatinho está aquecido, seguro, alimentado e ligado à sua mãe. A ação física de amassar torna-se ligada, no cérebro do gatinho, aos sentimentos de conforto, segurança e amor materno.
O Resquício Adulto: Mesmo quando um gato cresce, é desmamado e se muda para uma casa humana, essa via neuroquímica permanece intacta. Quando um gato adulto se sente relaxado, seguro e feliz — como quando está enrolado em um cobertor macio ou sentado no colo de um dono que ele ama — o cérebro regride para aquele estado de conforto de filhote. A manifestação física desse contentamento é começar a amassar novamente.
Quando seu gato amassa você, ele está dizendo que você faz com que ele se sinta tão seguro quanto a sua própria mãe o fazia.
2. Reivindicando Território (As Glândulas Odoríferas)
Embora o conforto seja o principal impulsionador do ato de amassar, há uma razão secundária e biológica que impulsiona o comportamento: a marcação territorial.
Gatos são animais territoriais e dependem do cheiro como principal forma de comunicação. Um gato possui glândulas odoríferas especializadas localizadas entre os dedos nas almofadinhas das patas. Toda vez que um gato flexiona os dedos durante uma sessão de amassar, libera seus feromônios únicos nas fibras do cobertor, do sofá ou do seu jeans.
Esses feromônios são indetectáveis pelo nariz humano, mas para outro gato são uma mensagem clara. Ao amassar o seu colo, seu gato está marcando você com o cheiro dele. Estão deixando uma mensagem química que diz: “Este humano, e este ponto específico do sofá, pertence a mim.”
3. Criando um Ninho (A Ancestralidade Selvagem)
Antes dos gatos serem domesticados para dormir em camas de espuma e sofás de veludo, seus ancestrais selvagens (Felis silvestris lybica) tinham que criar seus próprios locais seguros para dormir na natureza.
Quando um gato selvagem se prepara para dormir ou dar à luz, ele amassa a grama alta, achata as folhas e limpa os detritos para criar um ninho macio e escondido. O movimento rítmico de empurrar e tatear é o movimento físico necessário para quebrar a folhagem e construir uma cama confortável.
Quando seu gato doméstico pula na sua cama, gira em círculos e amassa o edredom antes de finalmente se deitar, está encenando o antigo ritual instintivo de construção de ninhos. Está garantindo que a superfície esteja configurada para o sono ideal.
4. Alongamento e Manutenção Muscular
Os gatos são atletas que dependem de corridas explosivas e saltos verticais. Para manter a flexibilidade, precisam de se alongar constantemente.
Amassar atua como uma forma eficaz de ioga felina. Se você observar um gato a amassar pãozinho, ele não está apenas movendo as patas; está se esticando para frente, agarrando o tecido e puxando para trás, alongando os músculos e tendões dos ombros, descendo pelas costas e indo para as pernas. É uma liberação física satisfatória depois de acordar de uma longa soneca.
5. O Indicador de Cio (Fêmeas)
Há um caso específico em que o ato de amassar não tem nada a ver com conforto ou construção de ninho.
Se você tem uma gata não castrada e de repente ela começa a amassar o ar com as pernas traseiras enquanto congela com a metade frontal abaixada e a cauda empurrada para o lado, ela não está fazendo biscoitos. Entrou na fase ativa do ciclo de cio (estro) e está assumindo a postura de acasalamento (lordose) para sinalizar a sua prontidão aos gatos machos.
A única solução para esse tipo específico de amassar, junto com os uivos que o acompanham, é a castração cirúrgica da gata.
Como Lidar com o “Amassar” Doloroso (Sem Remoção de Garras)
Embora o ato de amassar seja um elogio ao tutor, pode ser fisicamente doloroso se o gato preferir fazê-lo diretamente nas pernas nuas enquanto estende totalmente as garras.
O que você deve fazer? Nunca castigue um gato por amassar. Se você gritar, empurrá-lo com força ou borrifar água, ele não entenderá que as garras o machucam. Entenderá apenas que você rejeitou a sua maior demonstração de amor e confiança, danificando o vínculo de vocês.
Em vez disso, gerencie o comportamento de forma prática:
- Mantenha as Garras Aparadas: Esta é a solução mais eficaz. Compre cortadores de unhas felinos de qualidade e corte as pontas afiadas das garras dianteiras a cada duas ou três semanas. Sem as pontas como agulhas, o amassar torna-se uma massagem indolor.
- O Cobertor Barreira: Mantenha um cobertor grosso na parte de trás do sofá. No momento em que o gato subir no seu colo e começar a ronronar, deslize o cobertor sobre as pernas antes que as garras saiam.
- Redirecionamento Positivo: Se ele estiver machucando você e não houver um cobertor por perto, levante delicadamente o gato e coloque-o num travesseiro macio ou numa caminha de pelúcia encostada a você no sofá. Faça carinho nele continuamente durante a transição.
- Nunca Remova as Garras: Sob nenhuma circunstância recorra à onicectomia (remoção cirúrgica das garras) para parar o amassar doloroso. A onicectomia amputa o último osso dos dedos do gato, causando dor crónica e graves problemas de comportamento. É desnecessário e cruel.
Conclusão
A próxima vez que seu gato começar a marchar ritmicamente no seu estômago, faça uma pausa e aprecie o momento. Através de uma combinação de memória neonatal, comunicação olfativa e antigos instintos selvagens, seu gato está realizando um ritual de conforto e vulnerabilidade. Mesmo que exija um cobertor grosso para suportar, “amassar pãozinho” é a expressão mais pura do contentamento felino.